domingo, outubro 21, 2007

Auto-retrato



Auto-Retrato
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Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.
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Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.
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Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.
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Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.
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José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, outubro 09, 2007

Ausência



AUSÊNCIA
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Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
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Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
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Sophia de Mello Breyner Andersen

segunda-feira, outubro 08, 2007

Reflexão


É mais confortável calar e ser mais um carneiro no rebanho.
Todavia, esse conforto gera uma dívida impagável para com a própria consciência.
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Gilberto Jesus

Um dia...


Um dia ...
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Um dia mortos gastos voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais
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O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais
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Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala ....!
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Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, setembro 23, 2007

Prosa em tempo de guerra - Moçambique


MOMENTOS DE REFLEXÃO
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Três homens sentados nos bidões que guardam o combustível que fará movimentar os Unimogs prontos a transportar o pessoal para as praias da baia de Fernão Veloso, durante o mês de descanso. E todos merecem este repouso para recuperar dos dias trágicos do Vale de Miteda, onde alguns verteram o seu sangue até à morte.
Em tempo de reflexão, as ideias são mais profícuas e conduzem a observações mais consistentes sobre os efeitos da guerra nas vidas dos jovens desta geração. Estamos em véspera de mais um dia da Restauração da independência e, naturalmente, vem à baila esta anacrónica fase da história, que marca as contradições da nossa condição de colonialistas combatendo a vontade de independência destas gentes que nos são distantes!
O Simões e o Tavares são, talvez, os mais renitentes em continuar na guerra, já que se têm manifestado contra alguns sistemas de poder da hierarquia. Há cerca de dois meses que requereram a saída das fileiras. Ambos têm garantido o desempenho de funções bem mais profícuas para o país. O Simões tem emprego na metrópole e quer terminar a licenciatura; o Tavares está contratado por uma empresa de petróleos, com a garantia de um ordenado muito superior ao do tenente-coronel seu comandante de batalhão.. Fazendo parte do grupo, está o Santos, com a garantia de emprego na fábrica de cerveja Manica, na cidade da Beira. São três jovens sargentos pára-quedistas, com o futuro hipotecado nesta guerra e que já deram muito do seu saber às tropas pára-quedistas a que pertencem. Todos têm as suas próprias convicções, que defendem com um elevado conhecimento cultural e informal. Com problemas comuns, sabem farejar opiniões para um entendimento dinâmico da situação do país, como atesta o Tavares:
- Por tudo aquilo que se vê nos apoios à tropa destacada desde Macomia a Mueda, passando por Miteda, Nangololo, Negomano e Nangade, é um salve-se quem puder. O mesmo se pode dizer com os meios para evacuação dos mortos e feridos, nas picadas. Os “grandes chefes” estão-se cagando para a malta que morre sem assistência e por carência de helicópteros, e também para os que sofrem os rigores do isolamento e se amolam nas penosas caminhadas de mochila às costas, pelo meio da mata.
Esticando as pernas, o Simões atalhou:
- Quem se governa são os “monhés” que exploram o comércio com os brancos e com os pretos; e, mesmo que estes gajos venham a chegar à independência, vai ser um processo muito lento para dominarem os meios de produção e colherem os frutos da sua terra.
O Santos, mais integrado na sociedade moçambicana, reconhece que muitos brancos, seus conterrâneos (minhotos), estão a ser escravizados pelos holandeses que mandam nos colonatos e refere:
- Eu fiquei indignado quando visitei uns amigos que trabalham nos colonatos próximo de João Belo. Vivem pior dos que os pretos, sem auto estima, e poucos chegam a encarregados, porque os estrangeiros os oprimem. Então, nos ordenados, ganham menos de um quinto do que ganham os estrangeiros que vivem em palacetes com ar condicionado e cheios de mordomias, enquanto os portugueses vivem no tabique. É uma autêntica afronta à soberania portuguesa.
Do lado da baía corre uma brisa suave, enquanto o sol se estende para alem das matas lá para os lados de Nampula. Aproxima-se mais uma noite de combate aos mosquitos. Mas a conversa prossegue com o Tavares a proferir a sua breve palestra:
- Pensando bem, não chego a perceber quem é que manda em Moçambique. Pelo que se viu durante o curso de pára-quedismo civil ministrado ao engenheiro Jorge Jardim, respectiva família e amigos, o governador parece ser um “verbo de encher”; quando foi preciso um avião para os saltos, o engenheiro telefonou ao governador e logo este mandou o “seu” Dakota de Lourenço Marques para a Beira. E só foi de volta depois de todos os instruendos terem efectuado todos os saltos. O mesmo se tem passado com as obras no Batalhão da Beira – quem manda é o engenheiro Jorge Jardim!
O Simões também tem as suas dúvidas:
- Aqui em Nacala, parece que todos obedecem aos poderes de Nampula. Os poderes estão lá instalados, gozam dos oásis em tempo de guerra. As “madames” dos comandantes e da gente fina passam o tempo nas esplanadas em alegres cavaqueiras ou nas piscinas pagas pela tropa, onde mostram as finas peles dos corpos elegantes; logo ao lado, no hospital militar cheio de carências para fazer face à gravidade das situações, os militares, com os corpos estropiados e feridas marcantes para o resto da vida, sofrem por terem trilhado os caminhos e as matas do norte em nome da escumalha da sociedade.
O Tavares abanou a cabeça num gesto concordante e diz:
- Esta é mais uma situação de descarado afrontamento. Há tempos atrás tive um desentendimento com o chefe da Pide de Nampula, só porque o dito cujo entendeu que o bar do Hotel Portugal não deve servir militares que não pertençam aos aquartelamentos de Nampula. E por causa duma fulana que me acompanhava, o filho da puta desafiou-me para a pancada. Não demorou a levar com uma cadeira na pinha, e se não fosse o tenente piloto Malaquias, as coisas seriam mais graves, já que ele se preparava para usar a pistola.
São tantos os exemplos de um poder fragilizado e estratificado em diversos poderes que as cumplicidades dos mandantes se limitam a gerir as suas próprias hortas. Os políticos são uns bacocos ignorantes e amorfos, os administradores de posto uns oportunistas mergulhados na contemplação das raparigas mais vistosas. Enquanto os bens da nação estão à mercê da pilhagem, a maioria da hierarquia militar mais graduada, acomoda-se a esta forma de cumplicidades, esquecendo a tropa de quadrícula que sofre as agruras da decadência de todo o sistema que os devia proteger. Assim temos o país a afundar-se no pântano da miséria dos que vivem no torrão à beira-mar plantado.
O Tavares remata a conversa:
- Não são visíveis movimentos de mudança, porque os chefes não estão vocacionados para a reflexão; limitam-se a elaborar alguns planos de operações e a ler os relatórios. Isso é suficiente para justificar a subida nas carreiras e a exigência de melhores ordenados.

Nacala, Novembro 1966
(autor desconhecido)

quarta-feira, agosto 29, 2007

Poesia em tempo de guerra - Moçambique (V)



DESÂNIMO

Tento aliviar o desânimo que me atinge
na profundeza das lágrimas clandestinas!

quase perdido no lastro do caixão
moribundo que a vida finge
confortar num sonho mágico
que não acalenta meu coração.

Vieste participar no circo trágico
que nos atira para a engrenagem
miserável da nefasta guerra...
mas sem dares conta da miragem
os teus gritos a favor da paz
ecoarão até aos confins da terra.

Camarada Sousa que caíste
trespassado pela bala inesperada,
tal era o teu cansaço que não viste
a morte na ausência decretada!

Só limparei o desânimo se tiver
atirado com a mordaça ao inferno,
porque a memória me faz viver
e o teu corpo jaze no sono eterno.

Nangade, Março de 1966

(autor desconhecido)

segunda-feira, agosto 27, 2007

Poesia em tempo de guerra - Moçambique (IV)


CURANDEIRO

Hoje acordei sem réstia de memória!
senti uma tranquila paz
que me conforta dos dias amargos
e das ofensivas acções contra a história
deste tempo que não volta atrás
quando a pátria sofre irreversíveis estragos.

Já não sinto a saudade...
dos afagos irrequietos duma mulher
nem sequer quero ir à cidade
onde se compra o amor que se quer.

Olho para o modesto cemitério
e vejo a morte em suspenso...
os mortos ainda não estão enterrados
porque um avião de bom-senso
espera o embarque dos encaixotados.

Perante o infortúnio maldito
que se abate sobre esta geração
ouço os companheiros a desabafar
nestas manhãs tranquilas, sem um grito
e sinto os amargos no coração
tantos que nos fazem chorar!

Envolvido neste espaço da bruma
com o silêncio dos gemidos de dor
e as bocas cheias de espuma,
vamos fomentar a paz e o amor
até ao clarear de qualquer dia
que nos envolva na serena alegria.

Caminho sobre o rumo da história
que uma pátria me anuncia
quando sinto despojada a memória
dos valores que a humanidade cria.

Agora que as mentes rasgam o mapa
dos nossos encantados descobrimentos
pouco restará desta rude trapa
além das amarguras e tormentos:
mágoas nos corpos sofridos
que vão rasgando o pensamento
e as fráguas nos olhos humedecidos
tentam mudar o rumo do vento.

Já pouco espero da trágica guerra
quando dos olhos brotam lágrimas tristes
que fazem desejar o regresso à terra
na convicção de que ainda existes.
É assim que eu iludo a memória
nesta vertigem das lágrimas perdidas
com os farrapos da nossa história
vamos curando as nossas feridas.

Macomia, Abril de 1967
(autor desconhecido)

domingo, agosto 26, 2007

Poesia em tempo de guerra - Moçambique (III)


UM TERRÍVEL ABANDONO

Ouvi o rumor do vento atravessando
as savanas...
enquanto descia a noite
o silêncio dos companheiros
estremeceu o milho das machambas
regadas com o sangue vermelho
que a morte percorreu na fatídica hora!

Ninguém pode sair daqui p’ra fora!
os corpos esgotados...
abandonados na terra pardacenta
que cavámos para refúgio
das consciências tensas...
ali mesmo sente-se a morte lenta
a sugar o sangue derramado
amargurado sofrimento...

Todos perdem a própria razão
surdos ao rumor do vento!
Reprimimos a violenta respiração
e logo o dedo imprime a força
no gatilho percutor da morte.
Mais um que não teve sorte...

Sente-se uma estranha recusa
entrelaçada no vazio das ideias
que nos consomem em terra lusa!
Quero atirar fora estas peias
urdidas por escabrosos vultos
que nos querem assim matar...
joguetes de interesses ocultos
nem os mortos querem enterrar!

Napota-Nangade, 15 de Março de 1966

(autor desconhecido)

sábado, agosto 25, 2007

Poesia em tempo de guerra - Moçambique (II)


PORQUE PROTESTO

Meu companheiro de infortúnio,
Madriana exangue que te finas...
já nem encontro o teu sangue
que se escoa das veias finas.
O sol não ouve o meu apelo
depois duma noite dolorosa,
o teu corpo arrefece, pesadelo
da vida que se escapa desditosa!

As palavras presas na garganta
aumentam o perturbante silêncio,
mas o protesto contra as balas
não ajuda a conjugar a razão
porque jazem os heróis frios
em terras onde a pátria apodrece
com a degradante governação.

Horas da raiva que se desvanece
neste cenário onde o prumo esquece
o desejo de fazer o que não faço:
- bater a todas as portas e janelas
e afugentar a corja do Terreiro do Paço,
para acabarem as nossas mazelas!

Napota, Março de 1966
(autor desconhecido)

sexta-feira, agosto 24, 2007

Poesia em tempo de guerra - Moçambique (I)


CÉU NUBLADO

Olho à volta, o silêncio
Dos companheiros calados
Olhares transparentes...
Olhos molhados
Dores silenciosas e sofrimento
Tolhem o pensamento
E os sonhos consequentes.

Viagens com tragédias embarcadas
Fantasmas tranquilos
Que nos rodeiam
Nas noites sossegadas,
Sem tempo para sonhar amores,
Dedilhar os tenros mamilos
E lambiscar os seus sabores.

Nangade, Fevereiro de 1966


(autor desconhecido)