domingo, dezembro 09, 2007

NATAL



Dia de Natal
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Hoje é dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
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É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poder continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
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Comove tanta fraternidade universal,
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
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De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem em fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
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Torna-se difícil caminhar nas preciosa ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos amigos que passam mais distante.
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Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o imenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
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Os olhos acorrem num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
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A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.
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Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
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Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
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Ah!!!!!!!!!!!
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Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
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Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
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Que alegria
Reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá
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Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caiam
crivados de balas.
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Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É Dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
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Feliz Natal
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António Gedeão

quarta-feira, novembro 21, 2007

Liberdade



Liberdade
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Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doiraSem literatura.
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O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
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Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
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Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
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Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
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O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
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Fernando Pessoa

sexta-feira, novembro 09, 2007

O Amor que sinto


O amor que sinto
é um labirinto.
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Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necessária
de um Sol que não vejo,
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.
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Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
pátria mal-amada,
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".
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E porque não minto
sou um labirinto.
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José Gomes Ferreira

sábado, novembro 03, 2007

Poema


Poema
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A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
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Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
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Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
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A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
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Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
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E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada
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Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, outubro 31, 2007

Porque...


Porque
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Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
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Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
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Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
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Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
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Sophia de Mello Breyner Andersen

domingo, outubro 21, 2007

Auto-retrato



Auto-Retrato
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Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.
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Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.
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Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.
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Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.
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José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, outubro 09, 2007

Ausência



AUSÊNCIA
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Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
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Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
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Sophia de Mello Breyner Andersen

segunda-feira, outubro 08, 2007

Reflexão


É mais confortável calar e ser mais um carneiro no rebanho.
Todavia, esse conforto gera uma dívida impagável para com a própria consciência.
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Gilberto Jesus

Um dia...


Um dia ...
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Um dia mortos gastos voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais
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O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais
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Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala ....!
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Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, setembro 23, 2007

Prosa em tempo de guerra - Moçambique


MOMENTOS DE REFLEXÃO
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Três homens sentados nos bidões que guardam o combustível que fará movimentar os Unimogs prontos a transportar o pessoal para as praias da baia de Fernão Veloso, durante o mês de descanso. E todos merecem este repouso para recuperar dos dias trágicos do Vale de Miteda, onde alguns verteram o seu sangue até à morte.
Em tempo de reflexão, as ideias são mais profícuas e conduzem a observações mais consistentes sobre os efeitos da guerra nas vidas dos jovens desta geração. Estamos em véspera de mais um dia da Restauração da independência e, naturalmente, vem à baila esta anacrónica fase da história, que marca as contradições da nossa condição de colonialistas combatendo a vontade de independência destas gentes que nos são distantes!
O Simões e o Tavares são, talvez, os mais renitentes em continuar na guerra, já que se têm manifestado contra alguns sistemas de poder da hierarquia. Há cerca de dois meses que requereram a saída das fileiras. Ambos têm garantido o desempenho de funções bem mais profícuas para o país. O Simões tem emprego na metrópole e quer terminar a licenciatura; o Tavares está contratado por uma empresa de petróleos, com a garantia de um ordenado muito superior ao do tenente-coronel seu comandante de batalhão.. Fazendo parte do grupo, está o Santos, com a garantia de emprego na fábrica de cerveja Manica, na cidade da Beira. São três jovens sargentos pára-quedistas, com o futuro hipotecado nesta guerra e que já deram muito do seu saber às tropas pára-quedistas a que pertencem. Todos têm as suas próprias convicções, que defendem com um elevado conhecimento cultural e informal. Com problemas comuns, sabem farejar opiniões para um entendimento dinâmico da situação do país, como atesta o Tavares:
- Por tudo aquilo que se vê nos apoios à tropa destacada desde Macomia a Mueda, passando por Miteda, Nangololo, Negomano e Nangade, é um salve-se quem puder. O mesmo se pode dizer com os meios para evacuação dos mortos e feridos, nas picadas. Os “grandes chefes” estão-se cagando para a malta que morre sem assistência e por carência de helicópteros, e também para os que sofrem os rigores do isolamento e se amolam nas penosas caminhadas de mochila às costas, pelo meio da mata.
Esticando as pernas, o Simões atalhou:
- Quem se governa são os “monhés” que exploram o comércio com os brancos e com os pretos; e, mesmo que estes gajos venham a chegar à independência, vai ser um processo muito lento para dominarem os meios de produção e colherem os frutos da sua terra.
O Santos, mais integrado na sociedade moçambicana, reconhece que muitos brancos, seus conterrâneos (minhotos), estão a ser escravizados pelos holandeses que mandam nos colonatos e refere:
- Eu fiquei indignado quando visitei uns amigos que trabalham nos colonatos próximo de João Belo. Vivem pior dos que os pretos, sem auto estima, e poucos chegam a encarregados, porque os estrangeiros os oprimem. Então, nos ordenados, ganham menos de um quinto do que ganham os estrangeiros que vivem em palacetes com ar condicionado e cheios de mordomias, enquanto os portugueses vivem no tabique. É uma autêntica afronta à soberania portuguesa.
Do lado da baía corre uma brisa suave, enquanto o sol se estende para alem das matas lá para os lados de Nampula. Aproxima-se mais uma noite de combate aos mosquitos. Mas a conversa prossegue com o Tavares a proferir a sua breve palestra:
- Pensando bem, não chego a perceber quem é que manda em Moçambique. Pelo que se viu durante o curso de pára-quedismo civil ministrado ao engenheiro Jorge Jardim, respectiva família e amigos, o governador parece ser um “verbo de encher”; quando foi preciso um avião para os saltos, o engenheiro telefonou ao governador e logo este mandou o “seu” Dakota de Lourenço Marques para a Beira. E só foi de volta depois de todos os instruendos terem efectuado todos os saltos. O mesmo se tem passado com as obras no Batalhão da Beira – quem manda é o engenheiro Jorge Jardim!
O Simões também tem as suas dúvidas:
- Aqui em Nacala, parece que todos obedecem aos poderes de Nampula. Os poderes estão lá instalados, gozam dos oásis em tempo de guerra. As “madames” dos comandantes e da gente fina passam o tempo nas esplanadas em alegres cavaqueiras ou nas piscinas pagas pela tropa, onde mostram as finas peles dos corpos elegantes; logo ao lado, no hospital militar cheio de carências para fazer face à gravidade das situações, os militares, com os corpos estropiados e feridas marcantes para o resto da vida, sofrem por terem trilhado os caminhos e as matas do norte em nome da escumalha da sociedade.
O Tavares abanou a cabeça num gesto concordante e diz:
- Esta é mais uma situação de descarado afrontamento. Há tempos atrás tive um desentendimento com o chefe da Pide de Nampula, só porque o dito cujo entendeu que o bar do Hotel Portugal não deve servir militares que não pertençam aos aquartelamentos de Nampula. E por causa duma fulana que me acompanhava, o filho da puta desafiou-me para a pancada. Não demorou a levar com uma cadeira na pinha, e se não fosse o tenente piloto Malaquias, as coisas seriam mais graves, já que ele se preparava para usar a pistola.
São tantos os exemplos de um poder fragilizado e estratificado em diversos poderes que as cumplicidades dos mandantes se limitam a gerir as suas próprias hortas. Os políticos são uns bacocos ignorantes e amorfos, os administradores de posto uns oportunistas mergulhados na contemplação das raparigas mais vistosas. Enquanto os bens da nação estão à mercê da pilhagem, a maioria da hierarquia militar mais graduada, acomoda-se a esta forma de cumplicidades, esquecendo a tropa de quadrícula que sofre as agruras da decadência de todo o sistema que os devia proteger. Assim temos o país a afundar-se no pântano da miséria dos que vivem no torrão à beira-mar plantado.
O Tavares remata a conversa:
- Não são visíveis movimentos de mudança, porque os chefes não estão vocacionados para a reflexão; limitam-se a elaborar alguns planos de operações e a ler os relatórios. Isso é suficiente para justificar a subida nas carreiras e a exigência de melhores ordenados.

Nacala, Novembro 1966
(autor desconhecido)